segunda-feira, 21 de dezembro de 2015

MAGIA DO NATAL


     Hoje, último domingo do advento, "a proximidade da luz".
Resolvi assistir à Santa Missa na Igreja da Ressurreição, situada na Praia do Arpoador, entre as praias de Copacabana e Ipanema. O vigário desta paróquia é o Monsenhor José Roberto Devellar, o mesmo que celebra a Missa, aos domingos, na TV Cultura.
Como sempre, este fabuloso Monsenhor José Roberto Devellar escolhe palavras apropriadas a diversas ocasiões.

     Certa feita, este ilustre monsenhor relembrava um momento marcante em sua vida paroquial: na missa de sétimo dia em memória ao cantor Gonzaguinha, a atriz Marília Pera fora convidada a ler a epístola da missa, a atriz desculpou-se porque não trouxera o óculos. “Se o reverendo Monsenhor, permitisse, ela dirigiria algumas palavras em homenagem ao falecido”. A palavra lhe fora concedida pelo reverendo Monsenhor José Roberto. Eis que a atriz Marília Pera dirigiu-se ao púlpito e começou a tecer uma elegia em homenagem ao cunhado falecido. Segundo o Monsenhor José Roberto, foram palavras tão lindas e tão fortes, a plateia começou a chorar inclusive o próprio Monsenhor...
Imagino que este Monsenhor José Roberto deva ter exaltado a figura desta inesquecível atriz por ocasião de seu passamento, o ALELUIA de MARILIA PERA!
     
     Um sermão deste “anjo da Praia do Arpoador” é de uma expressão de palavras tão forte que atrai fiéis de vários lugares do Rio de Janeiro! São palavras fortes e vibrantes proferidas com maestria, ele não utiliza gritos ou gestos ousados e de efeito à moda evangélicos neo pentecostais... Nada disto! São palavras iluminadas, carinhosamente proferidas por um pai espiritual de todos.
     O sermão de hoje, numa dinâmica espetacular, o Padre José Roberto citou a grande presença da Virgem Maria na vida cristã – Jesus filho de Maria, Maria a mãe de Deus. O estranho comportamento de várias seitas neo pentecostais que desqualifica a presença de Maria na vida de Jesus Cristo. Algumas delas até a ignoram. Para estes neo pentecostais Jesus é o filho sem mãe, uma espécie de “filho de chocadeira”. O nosso pároco se estende em sua explanação: os pintinhos de chocadeira, são frios, sem viço, a mãe é uma lâmpada! Os pintinhos nascidos diretamente de uma galinha são alegres, saltitantes, trepam na mãe galinha, brincam com ela. O sermão vai em um crescendo espetacular indo até à distribuição dos presentes às crianças carentes da favela Pavão Pavãozinho ocorrida ontem, muitos presentes doados pelos paroquianos, belos presentes e muitos, em quantidade e qualidade, segundo Padre José Roberto. Uma garotinha com cerca de nove anos de idade ganhou um carrinho e toda feliz levou o presente ao irmãozinho de quatro anos de idade! Outra criança, após ganhar o presente natalino, exclamou: Padre, estes são os presentes que meu irmão e eu ganhamos neste natal! Este ano nem papai e nem mamãe poderão nos presentear! Estamos em crise!
Finalizando o sermão, este padre santo exclama: e o presente ao menino infante? Todo o nosso amor e toda a nossa Fé em um amanhã repleta de luz e esperança!
Final da Missa, o semblante dos presentes é de felicidade!
Salve o Monsenhor José Roberto Devellar que por muitas vezes o tratamos de Padre! Ele é simples, pouco importa! Antes de ser padre ou ser Monsenhor, ele é humano! Ele é irmão!
Carlos Lira
Feliz Natal 2015 - musicas clasicos de natal 2https://youtu.be/cAwPbfi0sE8 ►►►…
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terça-feira, 13 de outubro de 2015

ALEGORIA DA VELHICE INJUSTIÇADA


     Dói-me no fundo da alma recordar o que passou, vidas vividas em tempos idos, idos infindos e condoídos com aquilo que estou passando agora, é um excesso de passado e de vazio que me torna mais velho do que sou realmente. Em toda a minha vida até agora tudo aconteceu numa rapidez em demasia. Antes, eu vivia, eu cantava e sorria, nem pensava no amanhã. O amanhã veio e sem fim vivo, justamente porque somente os mortos conhecem o fim de tudo isto.
     Vem-me à imaginação,  neste estágio de vida, a idéia de um pequeno mundo submerso onde sempre vivi, desde pequeno, desde o nascimento, onde sempre presenciei geração após geração, pessoas sempre aprisionadas viveram. A arte cinegética, muitos rabejam pela escuridão da noite, perseguem as presas, forçando-as a subir, e com elas sobem sem coragem para descer depois. Outros tantos recorrem a velhos navios, forçando navegação sobre uma lama pesada de um rio repleto de lágrimas. A noite impera em torno de tudo isto. São seres humanos forçados a permanecer sempre no mesmo lugar, imóveis, impossibilitados de olhar a vida com olhos de otimismo e fé, vítimas de uma força estranha gerada pelos próprios. Uma réstia de luz provinda de uma abertura qualquer penetra naquele recinto, ensejando, através da fraca luz, o que se passa naquele interior. Este brilho que entra é reflexo de uma fogueira ardente produzindo luz e calor para os detentores do poder supremo que estão lá fora. No extremo, lá dentro, é maioria que impera, sem império, sem tempo adverbial ou conjunção subordinativa. Não existe explicação. Entre a luz e os prisioneiros, há um caminho ascendente, íngreme, existindo um obstacular impedimento, como se fosse a parte fronteira de um palco de palhaços e marionetes. Desfilam atos e fatos desta mesma gente aprisionada.
     Hoje é o dia do trabalho. Primeiro dia de maio, mes das flores, mes de Maria, primeiro dia estressante, mentiroso e cruel; aprisionados, os prisioneiros em carreio, cabisbaixos se deixam levar. Festejar o que? O que esperar daqui para a frente? Enquanto isso, a fogueira arde, incendeia lá fora, escândalos se sucedem, injustiças se cometem e a desordem prolifera. Goethe escreveu: "Prefiro uma injustiça a uma desordem" mas, o que dizer se ambas se irmanam neste Brasil infeliz?
     "Não é bem assim", dizem uns, "existem muitos ricos", exclamam outros, "as televisões noticiam muitos brasileiros viajando para o exterior" protestam os demais. Primeiro de maio festeja o trabalho neste palco planejado de pessoas robotizadas, estátuas e animais bem tratados por madames ricas e pretenciosas, desfilam suas fantasias para quem gosta de riquezas, vaidades, frivolidades estampadas diante de olhos famintos, remelentos e sem viços. Para estes, são dias inúteis, são passeios ou caminhadas improváveis...
     Primeiro dia de maio, obtuso proceder, sucessivas injustiças cometidas são, honestidade pervertida, sem força para trabalhar, o bem inexiste; jovens insensíveis, herdeiros de podres poderes, cultura do corpo, regidos pelo consumismo, buscam o brilho, a fortuna, a sorte ocasional, o ganho fácil. Daí a desonestidade se manifesta, cruenta festa à custa dos outros, a banalização da fé em Deus.
     Cervejas, carteados, bancos de praça, burlam a morte os velhos próceres de outrora, desamparados de certos vocábulos, margeiam uma sociedade em decomposição. Engasgam-se de tanto falar porque longe dali perderam o poder de decisão, perderam a voz, são desrespeitados. Cada vez mais a aposentadoria é minguada, direitos lhes são retirados por um governo malsão que os maltrata; friamente são postergados a ínfimos planos de prioridades. Acordam-se com bocas amargas e muita angústia em corações cheios de amor ainda. Procuram corrigir esta injustiça com prazer, mas como, se prazer, neles, inexiste? Para os pobres aposentados deste Brasil de hoje, lhes são imposto sofrer um castigo irônico. Ou é isso, ou é uma cruel distração por parte deste governo que se diz "governo dos trabalhadores"
     Olho-me no espelho, oh espelho infame! O que vejo refletido em meus olhos? A velhice? Isso não importa. O peso dos anos pesando sobremaneira? Nada disso. Vejo e reflexo da dor, do desencanto, do desespero. O mundo esqueceu de mim, neste primeiro de maio principalmente. Com exatidão, mergulho do céu, à noite, preferencialmente, como uma ave de rapina, agourenta e faminta. Faço  parte de um coral que clama e protesta, vozes fracas, transeuntes passam, nem escutam o nosso clamor, ou temos cara de Sherazade? Não importa, amanhã eles envelhecerão também...
     O que hoje há de falso no Palácio do Planalto cuja verossimilhança maltrata tanto o aposentado brasileiro? Vários octogenários  com quem conversei, estão convencidos de que sempre existiram ameias espalhadas pelos ministérios em Brasilia onde se escondem guardiões prontos a massacrar os pobres aposentados desta nação. Os  velhos miseráveis, de uma miserabilidade instituída, tentam me convencer a respeito desta verdade verdadeira, traiçoeira e assassina: no período hibernal da existência nada de notável existe, ou nada procura existir o menos possível. No Brasil, os pobres velhos vivem largos anos prisioneiros deste terror chamado governo federal.
     Apesar de tudo, Feliz dia do Aposentado por extensão, porque o dia do Trabalho é o primeiro passo para uma aposentadoria infeliz.
Carlos Lira
     

Deve-se temer a velhice, porque ela nunca vem só. Bengalas são provas de idade e não de prudência.
 

terça-feira, 6 de outubro de 2015

DIA DE CHUVA

"Você diz que ama a chuva, mas você abre seu guarda-chuva quando chove. Você diz que ama o sol, mas você procura um ponto de sombra quando o sol brilha. Você diz que ama o vento, mas você fecha as janelas quando o vento sopra. É por isso que eu tenho medo. Você também diz que me ama"
William Shakespeare

Chove muito, muito chove pelo mundo afora onde vejo o mundo que me alcança, a dança dos pingos sobre o asfalto num sonoro repicar, repetitivo, triste, sem sol, faz-me lembrar... De tantas coisas lembro-me de vez da vez primeira, de coisas perdidas nas brumas do tempo, que sem tempo para algo mais, prendo o tempo em meu recordar... Uma vez ou outra o vento do mar vai açoitando os coqueiros, as árvores e tudo que vem em frente, açoita também o meu recordar... Na rua lamacenta o trânsito escorre pelo sinal aberto, sem buzinas, até parece  existir um toque de respeitoso silêncio daqueles que ao volante se quedam, e condizem com a espetacular outridade pelo dia que chora... Ah pensamento meu que pensa... De onde vens saudade infinda, acrescida de fugaz remanso ainda, sobranceira, te beiraste sobre a neblina, umedecida por meu pranto mesmo assim. Não quero fugir deste momento solene que domina a mim, a outros, e a oportunos sofreres. Cumulus nimbus se acumulam porque muita chuva vai ter de mais verter, é esta a ordem, é este o clima que agora clama em diretas proclamas: é tempo de espera, em seguidas esferas, restamo-nos nós ao sabor do frio que ora se avizinha...
A meu saudoso amigo Armando Pacheco Filho, desde a faculdade me aturou e a ele aturei também, poeta e escritor que há um ano nos deixou.
Carlos Lira
Agora escuta esta musica, é tão triste como está sendo este dia.

www.youtube.com/watch?v=yAx2CIHyd9Q
21 de ago de 2011 - Vídeo enviado por plakların savaşı
Jean Musy - Clair de Femme 1979. plakların savaşı. SubscribeSubscribedUnsubscribe 10,70310K ..

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clira

sexta-feira, 2 de outubro de 2015

HOTEL LINDA DO ROSÁRIO - cap I

HOTEL LINDA DO ROSÁRIO
(PARTE UM)



“O amor é eterno é o amor impossível. Os amores possíveis começam a morrer no dia em que se concretizam”.
Eça de Queiroz

O dia dos namorados é sempre um dia em que se festeja o amor em tom maior. Dia do amor, dia de amar o bem de amar. Porque faz bem amar na proporção de receber o amor de quem festeja o bem em nos amar.

"Grava-me, como um selo em teu coração, Como um selo em teu braço. Pois o amor é forte, é como a morte. Suas flechas são como flechas de fogo. Uma chama do Eterno”.
(Ct 8,6)  

Eis como se compõe o dia dos namorados, transposto inteiramente da linguagem visual de um cartão postal para a da poesia de Salomão. Porque no cartão postal uma bela mulher de cabelos ondulados e modos impudentes agarra o amado amante pelo ombro com a mão direita, enquanto outra, de cabelos louros, com gesto casto de sua mão esquerda faz apelo ao coração do objeto amado;  enquanto isso, do alto, um menino arqueiro, alado, está prestes a lançar flecha em chamas ao outro ombro do rapaz. Imaginando a cena deste cartão postal, não se ouve voz dizer: "Eu te encontrei, meu amor" ou outra: "Aquele que me procura me encontra". Não se reconhecem a voz da sensualidade, a voz do coração e a flecha de fogo do alto, do qual fala o rei Salomão.
     Amar em sua totalidade é praticar o voto da castidade que é o fruto da obediência e da pobreza. A escolha ditada pelo amor é de alcance maior do que o vício e a virtude. Aqui se trata em escolher a via da Obediência, da Pobreza e da Castidade ou escolher a via do Poder, da Riqueza e da Luxúria. Em essência, os três votos são recordações do Paraíso, no qual o homem estava unido a Deus (Obediência), no qual tinha tudo ao mesmo tempo (Pobreza) e no qual sua companheira era também sua mulher, sua amiga, sua irmã e sua mãe (Castidade). Porque a presença real de Deus acarreta necessariamente a ação de prostrar-se diante Daquele  "que é mais eu do que eu mesmo" - e aqui está a raiz e a fonte do voto de Obediência; a visão das forças, substâncias e essências do mundo na forma de jardim dos símbolos divinos ou Éden significa a posse de tudo sem escolher, sem pegar, sem apropriar-se de alguma coisa particular, isolada do todo - e aqui está a raiz e a fonte do voto de Pobreza, enfim a comunhão total entre o Único e a Única, que abrange a escala de todas as relações possíveis do espírito, da alma e do corpo entre dois seres polarizados, comporta necessariamente a integralidade absoluta do ser espiritual, anímico e corporal no amor - e aqui se encontra a raíz e a fonte do voto de Castidade. Só é casto quem ama a totalidade do seu ser. A castidade é a integralidade do ser não na indiferença, mas no amor, que é "forte como a morte e cujas flechas são flechas de fogo, a chama do Eterno". É a unidade vivida: Té és EU, eu sou TU, somos NÒS. São três: espírito, alma e corpo, que são um, e outros três: espírito, alma e corpo, que são um - três mais três fazem seis, e seis são dois, e dois são um. Tal é a fórmula da Castidade no amor. É a fórmula de Adão-Eva. Ela é o princípio da Castidade, a recordação viva do Paraíso. O amor é forte como a morte, isto é, a morte não o destrói. Por que o amor não é mais forte que a morte ou mais fraco que a morte? Se o amor fosse mais forte que a morte, deixaria de ser amor, justamente porque amor se confunde com a morte, isto é, quando amamos deixamos "morrer" a vida de solteiro, por exemplo, para deixar nascer a vida de casado. Se o amor fosse mais fraco que a morte, também deixaria de ser amor e se deixaria dominar pela paixão ou outro sentimento qualquer, distanciado do que vem a ser amor. A morte não destrói o amor porque ela não pode fazer esquecer, nem fazer cessar de esperar. A arte do  encontro é peremptório quando descobrimos que estamos cercados  de inúmeros seres vivos e conscientes, visíveis e invisíveis. Embora saibamos que eles existem realmente e que são tão vivos como nós, parece-nos que eles existem menos realmente e que são menos vivos do que nós. Na percepção intensa da realidade, para nós, somos nós que vivemos, enquanto os outros seres, em comparação conosco, parecem-nos menos reais; a sua existência tem mais da natureza de uma sombra do que da realidade completa. O nosso pensamento nos diz que é uma ilusão, que os seres fora de nós são tão reais como nós; mas é inútil, porque, apesar disso, nós nos sentimos no centro da realidade e vemos os outros seres como que afastados desse centro. Qualifica-se essa ilusão de "egocentrismo", de "egoísmo" ou  de ahamkara ("ilusão do eu") ou de "efeito da queda primordial", nada disso tem importância, uma vez que nem por isso ela cessa de nos fazer sentir-nos como mais reais do que o outro. Ora, sentir alguma coisa como plenamente real é amar. É o amor que nos desperta para a realidade de nós mesmos, para a realidade do outro, para a realidade do mundo - e para a realidade de Deus. Nós nos amamos sentindo-nos reais. E não amamos - ou não amamos tanto quanto a nós - os outros seres que nos parecem menos reais. Ora, duas vias, dois métodos bem diferentes podem libertar-nos da ilusão de "eu vivo - tu sombra", e a escolha cabe a nós. Uma  consiste em extinguir o amor a si mesmo e em tornar-se "uma sombra entre as sombras", é a igualdade na indiferença. Eu sombra - tu sombra. A outra  via ou método consiste em alguém estender aos outros o amor que tem a si mesmo, a fim de realizar a fórmula: eu vivo - tu vivo. Trata-se de tornar os outros seres tão reais como ele, isto é, de amar o próximo como a si mesmo. Porque amor não é programa abstrato, mas substância e intensidade. Baseado neste tratado é que me proponho a narrar um conto maravilhoso, transcendente, íntegro porque foi correto, absoluto porque foi único. À medida que este conto vai caminhando à seu final, o leitor poderá formular um julgamento se este amor entre Jayme e Irene é "eu vivo - tu sombra", ou "eu sombra - tu sombra" ou "eu vivo - tu vivo".

Há 34 anos que aquele quarto respira amor. Hotel Linda do Rosário, linda para amar um amor lindo, verdadeiro e eterno. Ternos momentos vividos Jayme e eu: Jayme, entre o meu amor e o amor que ele nutria por mim, adentrou em meu coração apaixonado, nele se instalou e vivemos lindos momentos de ternura e beijos. Aquartelados naquele  recanto escolhido por nós, no centro do Rio de Janeiro, próximo aos nossos trabalhos, servia de palco para aquele amor de luz. Aquelas paredes, testemunhas vivas dos nossas respirações rápidas, entrecortadas de gemidos e  beijos, guardam o segredo do nosso silencioso amor. Hotel Linda do Rosário era o ponto do nosso encontro, no mesmo andar, no mesmo quarto, no mesmo piso, no mesmo ar e na mesma cama. Jayme alugara aquele quarto exclusivamente para os nossos encontros. O trânsito do centro da cidade, na hora do almoço, na hora do nosso amor, silenciava, dando lugar aos sons repetitivos a pequenos intervalos dos pássaros, a pleno meio dia de um sol escaldante, lá fora, é claro, porque em nosso quarto, aquecidos, Jayme e eu vivíamos a intensidade do encontro que sempre aconteceu e sempre viveu em cada um de nós. Sinto, se o abraço, um coração a pulsar. Será o meu. Será o de Jayme ou será o do quarto a nos esperar? Pouco importa. Faz-me bem amar aquele homem que me ama com fervor. Quando estou com ele, sinto-me segura, cheia de esperança e guardo dentro de mim ótimas recordações deste amor que me inebria.
     - Irene, costumo pensar neste nosso esconderijo como sendo um velho  barco cortando a custo  um rio pardacento e  cheio de lama. As paredes nuas  e pintadas de um verde suave do quarto, eram como se fossem uma grande floresta.  A escuridão de uma  noite tempestuosa a nos envolver. - Jayme disse isto e baixou a voz. Apontou num gesto vago os vagos recantos do quarto penumbroso devido as janelas estarem fechadas preservando a nudez apaixonada do casal cheio de amor - este recinto está cheio de vozes, as nossas vozes, neste meu velho barco.

https://www.youtube.com/watch?v=HCPkNOAeoOY

HOTEL LINDA DO ROSÁRIO - cap II


HOTEL LINDA DO ROSÁRIO (PARTE DOIS)
DANÇA CIGANA 
  
 Formávamos belos casais: Corina e Jayme; Irene (eu) e Márcio. Corina e eu éramos vizinhas, morávamos em Bangu, perto da fábrica de tecido. Com a mesma idade, fomos nascidas e criadas na mesma rua. Muita gente pensava que éramos irmãs. Corina, após o curso ginasial, não quis continuar os estudos, dedicou-se à pintura e artes manuais. Sempre me interessei pelos estudos e pela dança. O meu pai sempre me incentivou para o estudo e para me tornar bailarina do Theatro Municipal. Consegui concluir o curso como normalista, desisti do ballet por falta de tempo. Corina e eu frequentávamos, juntas, e mais alguns amigos, a saraus e festas. Durante o carnaval, fantasiadas, o baile no clube da Mesbla, na Cinelândia, era o local onde nos divertíamos durante os festejos momesco justamente porque Corina trabalhava nesta loja. As nossas mães nos faziam companhia, vinhamos de trem até à Central do Brasil, depois, sorridentes, nos deslumbrávamos com a originalidade das fantasias dos foliões, com os desfiles das Escolas de Samba na Avenida Presidente Vargas, os blocos na Avenida Rio Branco e o famoso Baile do Municipal, realizado no Theatro Municipal, na terça feira gorda.  Em frente ao theatro, uma passarela toda iluminada servia de palco para que os concorrentes vencedores do concurso de fantasia desfilassem suas criações e fossem mostradas a um público delirante que se acotovelava desde cedo aguardando o resultado final. Evandro de Castro Lima e Clovis Bornay encarnavam reis, imperadores, figuras mitológicas e lendárias, ostentando riqueza e originalidade. Foi neste momento que Corina e eu nos apercebemos que estávamos sendo observadas por dois belos rapazes em meio aquele aglomerado humano. Em pouco tempo, depois da paquera, veio a aproximação, um bate papo sobre aquele ambiente carnavalesco, o convite a irmos juntos ao baile da Mesbla, a aceitação dos dois rapazes e tudo aconteceu como se fosse um sonho, um conto de fadas. Corina namorava Jayme, eu namorava Márcio, com a aprovação das nossas mães, dançávamos o amor que nascia. Tudo perfeito, tudo certinho. A luz de um sorriso galante por parte de um dos nossos pretendentes era o suficiente para iluminar as nossas almas. Primeiro beijo furtivo, segundo beijo, terceiro... mais dança, mais bate papo... agarra agarra na magia frenética da música carnavalesca... mais beijo... Enfim, a noite deslizou rapidamente, o baile terminara, promessa de novo encontro, endereço anotado, felicidade firmada e namoradas nos tornamos daqueles guapos rapazes. Pouco sabíamos a respeito deles, mas o suficiente para sentir que eram de boa estirpe.
    Apesar de negar para mim mesma, a verdade é que depois de muito tempo sem um namoro sério, sozinha, eu estava completamente envolvida por aquela aventura amorosa... e a recíproca era verdadeira sim... Tudo lindo e perfeito tanto para mim como para Corina, sendo esta mais empolgada que eu naquele amor que nascia...
     Os dias se sucederam, os encontros aconteciam, mais e mais os nossos relacionamentos recrudesciam - Márcio e eu; Jayme e Corina.

     Eu estudava no Instituto de Educação, estava perto da formatura e, como sabia dança espanhola e sapateava muito bem, fui escolhida para abrilhantar uma festa de despedida, organizada pela direção do Instituto. No auditório estavam a minha família, Corina e sua família e os nossos respectivos namorados. Após várias apresentações das alunas, chegou a minha vez de me apresentar no palco. Ao som de uma música cigana, teve início a minha apresentação. Foi um começo tímido e temeroso. À medida que se desenvolvia a música, fui dominada por uma energia cigana, um frenesi incontrolável, me deixei transportar ao reino da música, a sensualidade aflorou, não era eu quem dançava, era uma força estranha, era um calor que me tomava o corpo e eu me deleitava naquele gozo incomum. Voltei à mim aos últimos acordes daquela música vinda do além. A platéia, contagiada, de pé aplaudia a minha apresentação. Rosas vermelhas me foram oferecidas e os pedidos de bis se avolumavam. Por três vezes dancei aquela dança decisiva para o meu futuro, eu sentia em meu íntimo que depois daquele evento a minha vida tomaria um rumo diferente. Ah, por que aquilo foi acontecer? Hoje, distanciada dos sucessivos acontecimentos, não me arrependo daquele gesto extremo. Fui feliz na medida certa: hoje eu sei o quanto fui feliz apesar dos rumos tortuosos que tive de tomar.

     - Irene, não tenho palavras para dizer-te o quanto és encantadora! - entusiasmada, Corina pronunciara este elogio.

     Após a apresentação, os cumprimentos se sucederam e me tornei feliz como nunca! Márcio, com os olhos arregalados, surpreso, mal continha a emoção:
     - Amor, você é a mais bela mulher que se encontra neste recinto; você é a mais bela do mundo!!!

     Não sei... mas faltava algo mais... faltava escutar mais elogios? Fui tão elogiada. Será que espero ouvir a voz de algum anjo ou algo semelhante? Naquele momento eu não sabia definir o que faltava até que Jayme surgiu, propositadamente, foi o último a me cumprimentar. Nada me disse, nada pronunciou, nada falou mas o seu silêncio me perturbou... Ele disse tudo: o azul de seus olhos me fulminou completamente, como se me dissesse:
- Você dançou somente para mim...

     Fiquei ruborizada, o verde dos olhos meus se sentiram dominados por aquele olhar dominador. Naquele momento senti que Jayme era especial para mim.
     Tratei de sufocar aquele sentimento que me dominava, afinal, Márcio era um lindo rapaz, talvez mais belo que Jayme, tinha um futuro brilhante nas forças armadas, era inteligente e de bons sentimentos. Jayme, herdeiro de uma rica fortuna, era proprietário de uma cadeia de farmácias. Com certeza, Jayme me inflamava muito mais, tinha mais fogo, sabia me dominar como ninguém. Fiquei com medo de Jayme...
     Os dias transcorriam tranquilos e radiosos para Corina que estava ultimando os preparativos para o seu casamento com Jayme nos primeiros dias do ano de 1952. O seu amor jorrava na direção certa de seu escolhido e, através desta escolha, irradiava-se em todas as direções. "Para fazer ouro é necessário ter ouro", dizem os alquimistas. O equivalente dessa máxima em relação à Corina é que para amar a todos é necessário amar alguém, Jayme era o seu grande amor.

     Após o casamento, Carina irá residir na Tijuca, onde está instalando o seu futuro lar. Nós duas e algumas pessoas amigas estávamos atarefados na arrumação da casa, nos preparativos da festa e da cerimônia de casamento. Após pedir demissão do trabalho na Mesbla, Corina se dedicara exclusivamente aos preparativos daquele evento que selará a sua união com Jayme que é o ser mais próximo desde o começo, a sua alma-irmã desde toda a eternidade, a alma gêmea da sua alma, que contemplou a aurora da humanidade. A aurora da "sua" humanidade que se eternizará através dos filhos, dos netos e das gerações que se lhe advirão. Amar assim é bom, faz bem à vida, faz bem à alma. Corina irradiava um estado de felicidade porque amava sem reserva. Era um amor inteiro, completo e eterno. Jayme compreendia que "ser é amar". "Estar só é amar a si mesmo", conforme ele dizia à sua "amada" Corina. Em realidade, eu sempre soube que não é bom a pessoa amar somente a si mesma. É preciso amar o outro, uma parte do outro amada como a si mesma - (osso dos meus ossos e carne de minha carne).


     Imediatamente, face a estes acontecimentos, procurei aprisionar esta atração que sentia por Jayme em uma jaula de ferro, negando-me a revelar até a mim mesma este sentimento devastador. Impusera este castigo por ter-me negado a lutar por um amor que era o amor de minha melhor amiga. Desafiei aos pensamentos invasores que me atormentavam, afoguei as máguas para não ceder aos impulsos. Entretanto, incapaz de escapar, não demorei a compreender que o preço de meu silêncio tinha que ser... a vida. Após alguns anos de silêncio, neste exílio voluntário de renúncia, a realidade me resgatou da jaula onde me encontrava com a finalidade única de arrancar-me este segredo. E quando a realidade me resgatou de onde eu estava prisioneira, acreditei que era o próprio arcanjo Miguel que tinha vindo para levar-me ao céu. Divididos entre o crescente amor que nascia em nossos corações, Jayme e eu, sofríamos por causa da lealdade que juramos aos nossos respectivos conjuges,  apaixonados, nos víamos presos em uma rede de intrigas e perigos dos quais parecia impossível escapar.


http://www.youtube.com/watch?v=v6XTrIyoDDw&feature=related

HOTEL LINDA DO ROSÁRIO - cap III

HOTEL LINDA DO ROSÁRIO (Parte três)
A NOIVA
 (Parte Três) 

     
Para Corina, seu matrimônio com o atraente carioca Jayme marca o começo de uma vida nova e maravilhosa. A sua compreensão de que o amor - a realidade de Jayme - brotou e poderá depois manifestar-se e diversificar-se. Este é o calor de um amor especial, fecundo e cheio de promessas. Trata-se de um jorro qualitativo do amor que se refletirá no amor aos filhos, refletido, por sua vez, o amor dos filhos por ela e por Jayme, refletido ainda no amor dos filhos entre eles, refletido enfim no amor a todo o parentesco dos seres humanos e, além do parentesco imediato, por analogia, no amor a tudo o que vive e respira... é o Ágape...

     Será que o mesmo sentimento domina o coração de Jayme? Tenho minhas dúvidas... O seu olhar é traidor, ele me lança um olhar apaixonado que me deixa completamente sem ação... Por causa disso, evito a sua companhia, procuro outras companhias e outros olhares desimpedidos... Prefiro amargar uma possibilidade desfeita do que provocar uma trágica e imerecida desgraça entre as nossas famílias.  Não posso fazer ouvidos surdos às cruéis acusações e rumores possíveis caso cedessa à atração que Jayme exerce sobre mim.  Não posso negar essa terrível atração... Corina, que sabe ser inocente, desconhece existir essa nuvem negra que envolve o seu casamento, e não põe em perigo a felicidade com mentiras. Procuro me opor à traição com todas as fibras de meu ser, a fim de conservar a felicidade ameaçada de minha querida amiga, preservar a confiança que ela deposita nas pessoas que ela adora - Jayme e eu - e assegurar uma felicidade completa para todos nós. Procurarei fazer de tudo para não provocar a aproximação de Jayme. Bem sei que com aquele corpo e aquele brilho no olhar será muito difícil não ceder à tentação. Os opostos se atraem? A rudeza do momento obrigava-me a afastar-me da tentação. Eu sentia que ele tinha um objetivo na vida: descobrir se eu sou tão certinha e recatada quanto parecia. Oh Deus, isso é odioso e ao mesmo tempo fascinante!

     Sinto dificuldade em descrever a radiosa beleza de Corina, vestida de noiva, entrando na Igreja da Candelária. Os arranjos florais, as luzes, a sonoridade musical escolhida para aquele evento, tudo enfim, contribuiu para a beleza daquele momento como se fosse um conto de fadas. A noiva Corina, Corina amiga minha, irmã e parceira, tão linda e faceira em seu vestido branco de noiva, por inteira rendada estava, tecido frances, que sem vez, não a deixava parecer banal! Linda, diziam as pessoas presentes, linda, exclamavam os anjos, angelical suspiravam os faunos. Sem parecer que as frases proferidas fossem repetições das frases utilizadas em outros casamentos, o momento era único para todos nós que amávamos aquela noiva singular. Era um sentimento mágico, um preenchimento de coração, uma exaltação ao amor que ali selava um pacto, uma ótima vibração em ver Corina vestida de princesa... Linda, radiosa, florescente, e ainda mais feliz que antes. Um brilho inexplicável nos olhos, traduzia tudo o que ela sentia mas que era impossível traduzir esse sentimento em palavras... Com certeza, as fotografias em nada farão jus à beleza que Corina irradiava, não registrarão a nitidez daquela bela visão, o pulsar de seu coração e jamais alcançarão a leveza de sua alma em flor. Exultante, feliz, um ar de timidez, Corina, cresceu, ficou enorme, agigantou-se, devido à felicidade que transbordava... Era um estado mais do que feliz (ainda não descobriram uma palavra para descrever o estado superior à Felicidade). Corina percorria a nave central da igreja, começava, ali, a percorrer um novo caminhar, ao lado de quem escolhera para amar.
     E  Jaime? Até que enfim o seu dia de noivo chegou... em um sábado foi o casamento, um belo dia de verão, céu azul, fazia calor, mas a temperatura da igreja era amena. Soube depois que o seu dia fora super movimentado, um dia com irmãos e padrinhos, almoço num restaurante qualquer, uma conversa qualquer, uma piada qualquer, postura típica de um homem que vai contrair matrimônio. Tudo simples, em conformidade com a sua maneira de simplificar as coisas.

     Ao entardecer, lá estava ele, lindo, destemido, fiel à decisão de casar, super calmo, sem demonstrar nervosismo, presente à tudo o que antecedia à entrada da noiva na igreja: os convidados, os padrinhos, reparou toda a decoração e prestava atenção em todas as músicas.  Ver tantas pessoas queridas no mesmo lugar, felizes, sorridentes, as palavras emocionantes do padre, foram-lhe gratificantes. A reação foi positiva quando visualizou a beleza de Corina entrando na igreja, sendo conduzida pelo pai, acompanhada pelas damas de honra. Procurou com o olhar o amigo Márcio e a minha presença. Naquele momento, a minha emoção foi grande: ver Corina feliz e enterrar a grande atração que sentia por Jayme. Sinto-me fadada a uma situação de extrema necessidade: a partir daquele momento, estava privada e sem recurso para desejar o homem que pertencia à minha amiga irmã. Ante a precariedade, só me restava recorrer ao bonito capitão Márcio, que além de belo, me amava com ardor. Atrás de sua aparência atlética e destemida, o jovem rapaz esconde um coração terno e sensível, e de imediato se presta a marcar a data do casamento comigo. Eu sabia que os seus sentimentos por mim eram profundos, e o fraternal afeto dos primeiros dias de namoro se converteu em paixão e desejo...

     A recepção, após a cerimônia de casamento na igreja, foi em um salão de festa ricamente ornamentado com motivos relativos ao evento. Muitos convidados, homens e mulheres elegantes, sorridentes, cumprimentavam os noivos. Denner desenhou o meu vestido: bege, tinha o corte princesa, acompanhado de estola escura, feita do  mesmo tecido e luvas longas. A minha beleza foi elogiada e percebia que Márcio se sentia feliz com o meu bom gosto na escolha dos vestidos. Como era verão, dispensei o uso da estola de vison.

     O nosso abraço - Corina e eu - foi emocionante, choramos de emoção. Trocamos palavras de incentivo e, deixamos para depois os comentários sobre a beleza daquela festa. Ao cumprimentar Jayme, senti que, pelo menos naquele momento, ele estava feliz. Não era para menos, a vibração era enorme.

     Uma vez demonstrado como subistância e intensidade, pelo menos naquele dia do casamento de Jayme e Corina, o amor tende a difundir-se ramificando-se e diversificando-se segundo as formas de relações humanas nas quais ele entra. Será que esta apresentação analógica da religião condiz com a verdade? Acredito que sim. O inverso é a doutrina pansexual de Sigmund Freud. Porque em Freud é a libido ou o desejo sexual que é a base de toda atividade psicológica humana e que constitui a sua energia motora, a qual - mediante a "sublimação" ou direção por canais diferentes da satisfação do desejo sexual - torna-se a força criadora social, artística, científica e religiosa. Mas, o amor inteiro, está para o desejo sexual como a luz branca contendo as sete cores está para a luz vermelha. O amor compreende toda a escala das cores não diferenciadas, enquanto a "libido" de Freud é apenas uma cor isolada e separada do todo. O desejo sexual é apenas um aspecto do amor - o aspecto refletido pela parte do organismo físico e psíquico. Além do desejo sexual existem, pois, seis aspectos, cujo alcance não é menor e cuja doutrina Freud ignora ou cuja existência nega.
     Karl Marx, impressionado pela verdade parcial, reduzida à sua base simples, dizia: é preciso comer para se poder pensar, elevou o interesse econômico a princípio do homem e da história humana. Sigmund Freud impressionado pela verdade parcial, segundo a qual, é preciso primeiro nascer para se poder comer e pensar e para nascer é necessário o desejo sexual, elevou este último a princípio do homem e de toda a cultura humana. Marx via a base do homo sapiens como homo aeconomicus (homem econômico), Freud viu a basa do homo sapiens como homo sexualis (homem sexual).
     Por enquanto, o princípio freudiano irá determinar o destino matrimonial de Corina e Jayme.

     Sinto-me como derrotada pelos Demônios da Ira, mas lutarei para recuperar o meu equilíbrio emocional, sem nunca desfalecer, sem nunca ser enganada para entrar na guarida de um homem sedutor. Bem sei se ceder à tentação serei levada à cama, perderei tudo pelo que luto incessantemente. Sabine a Feiticeira das Ilusões, julgando-se segura e determinada, faz muito que aceitou seu destino: tentou seduzir o rei demônio. Assim que beija o feroz guerreiro, dá-se conta de que a sedução deixa de ser o temido castigo. Quando começam a apaixonar-se, um dos dois se verá obrigado a realizar o sacrifício definitivo. Se eu tentar agir como Sabine, o que farei? Renunciarei a minha vida feliz com Márcio ou cederei ao rei demônio de meu viver, Jayme?

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HOTEL LINDA DAS ESTRELAS - cap IV

HOTEL LINDA DO ROSÁRIO (PARTE IV)
     Passei a simpatizar com paixões impossíveis. Tornei-me especialista nisso. Afinal, aprendi a me administrar, cuidando-me para não exagerar na dose, tornei-me dosada, atenta me  atentei para vigiar os meus passos, policiando  meus anseios com a finalidade de  viver uma vida centrada e costurada no bem viver, sem alcançar a mais alta expressão de amar justamente porque esta alto grau de amor só o conquistaria com outro bem, bem sei com quem, não com Márcio, isto é verdadeiro, porque com ele vivo um  amor derradeiro, rotineiro e sem viço.  Aprendi a criar enredos, a guardar segredos, multipliquei personagens, dei-lhes vida, elas estão espalhadas pelo mundo afora, em meu mundo criado pela  imaginação. Fiz amizade com as minhas valentias, em atos heroicos me aportei, aprendi que ter  coragem não contagia, a covardia, sim. Gostaria de reger uma orquestra de pássaros enquanto o sol surge no nascente. Deus deu-nos o sonho para que possamos criar quimeras...

     Um ano e meio depois do casamento da amiga Corina com Jayme, pelo mesmo processo de casamento passei com Márcio. As  mesmas emoções vivenciamos , grandes momentos inesquecíveis  e outros tantos conquistaremos . Assim é a vida que levarei  em minha  missão de absorver  a vida por mim escolhida   Marcio comprou uma belíssima casa no Grajaú, distante alguns quilômetros da residência de Jayme e Corina. Foram frequentes as nossas visitas,  Jonas, o primeiro filho do casal amigo, era uma criança linda, simpática e nosso afilhado. Corina estava grávida novamente. O que mais encantava em minha amiga era aquela contagiante alegria de viver, ela era feliz e nos tornava felizes também. O desvelo pelo marido, a carinhosa atenção dispensada à criança, tudo nela rescendia amor. Márcio e Jayme saiam para conversar ou jogar sinuca na sala de jogos contígua à sala principal de nossa residência e, nós duas, nos confabulávamos acerca do dia a dia de casada e suas implicações. Nessas ocasiões, pouco ficava sozinha com Jayme, evitava conversar  com ele. O mesmo não acontecia com Corina e Márcio: ambos eram simpáticos, cordatos e sempre existiam assuntos a serem debatidos entre os dois.  Às vezes, em meus pensamentos vadios, as comparações apareciam, imaginando a certeza de casais bem definidos: Jayme e eu em vida plena, Corina e Márcio em vida amena. Não se deve procurar acertos no concerto de seres que se amam. Corina ama somente Jayme e Márcio ama somente a mim e isto é o bastante. Se os três soubessem o que penso, olhariam para mim como se eu fosse criadora de monstros. Chove lá fora, uma chuva fina, persistente, fria a rua, noite sem lua, a escuridão, chove tristeza, venta angústia, na incerteza de ser, sonolenta, não vejo estrelas para sonhar... Dói-me na alma este excesso de coisas não realizadas, restando apenas o vazio... Sim, estou vazia, o que fazer? Fiz. Estou grávida!  Corina e eu estamos na fase de engravidar. Eu pro lado de cá, ela do lado de lá. Que beleza! As nossas casas tomadas de berços e brinquedos, os filhos, crianças lindas, babás, peitos entumescidos de leite, dar de mamar, a mais pura maternidade que povoa este mundo de Deus. Corina, quatro filhos: Jonas, Guilherme, Débora e Constança. Eu três filhos: Carmen, Leandro e Vicente.

     Acho que o paraíso aqui na terra é exatamente isto que vivemos Corina e eu: a camada fundamental  de nossa alma e uma esfera cósmica. Este Paraíso é encontrado tanto no ênstase (nas profundezas, dentro de si, introspecção) como no êxtase nas alturas fora de si). Ambas somos as mulheres do dia e as mulheres da noite. O Paraíso sendo a região do começo ou dos princípios, é também a região do começo da "Queda" ou do princípio da tentação, isto é, do princípio da transição da obediência para a desobediência, da pobreza para a cupidez e da castidade para a impudência... Impudência... Tenho medo da queda... Tenho medo de lembrar que existo, que existe um passado não vivido, pendente... Pendência... Um passado morto ou que tento matar, mas ele existe muito vivo em minha memória, não intelectualmente, mas psiquicamente substancial.  Compreendo perfeitamente que não adianta tentar fugir, se procuro mudar, este passado me acompanha, ele é visceral. Nada perece e nada se perde no domínio psíquico: a minha história essencial - Jayme em minha vida - isto é, as alegrias que poderiam ter existido  e me foram negadas e os sofrimentos reais que me foram outorgados, as religiões e as revelações reais do passado continuam a viver em cada um de nós, e vive em mim, e em mim é que se encontra a chave da história essencial de minha vida com a vida de Jayme. Procuro esconder essa chave. Por enquanto, voltada estou ao trabalho de professora numa escola pública, voltada estou ao lar, à educação dos filhos que crescem com graça e beleza. Vou deixar o medo para depois...
     Bem sei que o medo me acompanha, é disto que tenho medo. As alegrias que me foram negadas... quem me negou? As tristezas que me foram outorgadas... quem me outorgou? Preciso parar para pensar e encontrar as respostas, as minhas respostas livre da ajuda de qualquer pessoa extranha ao meu drama pessoal, ninguém!
     No Paraíso houve três tentações. Eis os elementos essenciais das três tentações que se estendem à minha vida de mulher que procura ser soberana, mas que se engana até aprender a não poder ser: Eva ouviu a voz da serpente; viu que a árvore "era boa ao apetite e formosa à vista"; tomou do seu fruto e comeu, deu-o também ao seu marodo, e ele comeu... A voz da serpente é o meu lado carente e animal que grita, cuja inteligência é a mais avançada (animal astuto) de todos os seres vivos (animais) cuja consciência  é voltada para a horizontal.  Antes de Jayme, a minha inteligência era pura, era vertical, os meus olhos não tinham ainda sido abertos para o desejo carnal, estava "nua" e não me envergonhava em ser nua, estava consciente das coisas no sentido vertical, das coisas de Deus. Era inconsciente das coisas "nuas", isto é, das coisas separadas de Deus.  Tinha consciência do ideal e do real que me rodeava, era alegre, feliz e namorava a vida. Agora, estou na horizontalidade da consciência, vitimada do realismo puro e simples: o que está em mim é como o que está fora de mim, e o que está fora de mim é como o que está em mim. Agora estou consciente do subjetivo e do objetivo horizontal, vendo as coisas fugindo ao controle de minha mente, sinto-me nua em mim mesma, por mim mesma e para mim mesma. O meu eu exercendo a função da vontade, conhecendo o bem e o mal e me voltando para o mal. È o princípio do poder, que é a autonomia da luz da consciência, são duas vozes que escuto, duas inspirações provenientes de fontes contrárias. Estou cheia de dúvidas...
     Procurava não pensar, não tinha tempo para pensar, eu procura não ter tempo para nada, justamente para não pensar... Parar para pensar? Nem pensar! Procurava tornar a família feliz, "totalmente" ou tolamente feliz. Carmen, o orgulho do pai Márcio, crescia bela, cabelos lisos, tez morena clara, pele aveludada, sorriso fácil, enigmática e sedutora. Adepta das ciências sociais, o campo da sociologia a fascinava. Minha filha era uma exímia bailarina. Leandro, herdou os modos e gestos do pai: alegre, participativo mas responsável com os deveres e obrigações. Vicente, o meu belo Vicente, alegre, sorridente, praticava esportes, exímio nadador e curioso com as coisas ligadas à medicina. Márcio se revelara um excelente pai além de excelente marido. Tenho orgulho da minha família. Os filhos de Corina e Jayme, estudaram nos mesmos colégios que os meus filhos, praticamente foram criados juntos. Jonas, belo rapaz, compenetrado , jovial e muito amável. Estudou no Colégio Militar junto com Leandro, os dois ingressaram nas Agulhas Negras, influenciados por Márcio. Guilherme, porte nobre e atlético, optou por engenharia; Débora, a doce Débora, amável, simples e de uma beleza angelical, optou pela pediatria. Constança, a mais alegre e desinibida, entrou na faculdade de letras, pretende ser professora universitária, defender teses. A intelectual do grupo...

     A realidade é dura, crua, dolorosa e imperfeita, essa é a natureza da realidade e justo por isso, refugio-me nos sonhos. É o meu caminho de sonhar, sem pensar na realidade, sem pensar no irreal, prefiro sonhar. Vejo os filhos de Corina e os meus bem encaminhados, transpondo barreiras, vencendo desafios que chego a me assustar, e me belisco, e me pergunto: isto é real? O beliscão dói e descubro que eles são reais, os meus meninos, todos eles...Geralmente a realidade fere, mesmo quando, por instantes na vida, nos parece sonhos. Chego a tremer quando penso que eles irão definir suas vidas, sair do regaço do lar, do meu regaço e do regaço de Corina. Eles irão alçar vôo. Paro de pensar, ponho-me a sonhar...